Do lado de dentro, condições insalubres, isolamento e uma permanente tensão causada por frequentes rebeliões e ameaças de morte.
Do lado de fora, os parentes dos presos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e da cadeia pública Vidal Pessoa, em Manaus, que não cometeram nenhum crime, mas também enfrentam condições difíceis. Alguns chegam a passar fome. Tudo para tentar garantir uma vida menos pior para quem está do lado de dentro da fronteiras de concreto e aço.
Para muitos, a luta é para garantir que seus entes presos continuem vivos. Muitos relataram que entregaram cartas à diretoria da prisão denunciando ameaças recebidas por internos e que contraíram dívidas com advogados na tentativa de tirá-los de lá.
A BBC Brasil conversou com familiares de presos mortos e de outros que ainda estão nos presídios onde ocorreram as rebeliões que deixaram 64 mortos em Manaus.
Para tentar melhorar as condições de vida no presídio, eles contaram que chegaram a comprar tinta para pintar as celas dos internos em setembro de 2016. Além disso, uma das famílias relatou ter levado até material cirúrgico, como gazes e esparadrapo, para que um dos internos pudesse ser operado dentro da penitenciária.
A empresa Umanizzare, que administra o Compaj, confirmou essas declarações. Em nota, ela informou que a entrada da tinta no presídio foi autorizada pelo Estado, mas não informou por que ela mesma não fez o serviço, já que ela é paga para cuidar da gestão, operação e manutenção do local.
Em relação aos materiais cirúrgicos, a empresa disse que faz apenas atendimentos básicos dentro da unidade. As cirurgias de alta e média complexidade são feitas em outros locais. A empresa não comentou o caso questionado pela reportagem.
Os familiares disseram ainda que, muitas vezes, a comida oferecida está estragada, como feijão com vermes e água com gosto de ferrugem.
A mãe de um ex-detento afirmou que chegou a passar fome para comprar
comida e levar para ele na cela. Até mesmo a cesta de Natal que ganhou
da empresa no fim do ano foi para o filho.
Promessas
No desespero de tentar tirá-los de dentro do presídio, parentes dos presos fazem dívidas para pagar honorários a advogados.
"Um deles pediu R$ 4 mil para tirar meu filho de lá. Tirei dinheiro de onde já não tinha e, quando eu estava terminando de pagar, o advogado desistiu da ação. Perdi meu chão".
O mesmo aconteceu com a irmã de um detento morto na Compaj. Ela relata que o interno começou a ser ameaçado constantemente, mas não teve sua transferência autorizada. Ela decidiu recorrer a um advogado. O defensor pediu R$ 2 mil para conseguir libertar o preso. Mas a família, de origem muito pobre, não tinha a quantia.
"Em novembro, ele mesmo começou a falar que era para eu parar de me preocupar com isso. Ele já sabia que morreria em breve", disse.
Sem velório
Chorando, uma das mulheres relatou à BBC Brasil que seu marido foi
esquartejado, teve os olhos arrancados e o corpo carbonizado. Devido à
dificuldade de identificação de algumas vítimas e o medo das famílias de
sofrerem represálias no Instituto Médico Legal (IML), o último corpo só
foi enterrado oito dias após a matança no Comparj.







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