Lembro que o Alex Vallauri escrevia ‘Diretas Já’ e o Mauricio Villaça chegou a pintar uma Salomé dançando com a cabeça de Sarney em suas mãos”, conta o artista Ozéas Duarte, mais conhecido como Ozi. O pioneiro do grafitti e da arte urbana no Brasil traz uma retrospectiva de seu trabalho para Brasília na exposição “Ozi – 30 anos de arte urbana no Brasil”.
A mostra será inaugurada na terça-feira (10), às 18h na Caixa Cultural. Na abertura haverá uma conversa com Ozi e o curador Marco Antonio Teobaldo. A exposição ficará no Distrito Federal até 26 de fevereiro.
“Ozi – 30 anos de arte urbana no Brasil” recupera o início da carreira de Ozéas e outros pioneiros do grafitti. “No meu começo eram poucos malucos que iam para a rua e tudo tinha que ser rápido, então nem sempre era com qualidade”, relata Ozi.
Segundo ele, o trabalho que antes era feito de madrugada passou aos poucos a ser feito durante o dia e aí aconteceu a grande virada, porque outros artistas começaram a ir para as ruas pintar também.
O paulistano Ozéas Duarte fez parte da primeira geração do graffiti brasileiro.
Suas primeiras intervenções urbanas foram 1985. “Eu comecei no final da
ditadura. Tínhamos restrição de liberdade, censura e muita patrulha
ideológica e claro, a polícia feroz do Maluf, a temida Rota”.
Para o artista a grande diferença da época para os dias de hoje é a quantidade de trabalhos feitos com qualidade tanto nos temas como nas técnicas. Mais do que isso, segundo ele, outro ponto importante é a aceitação da sociedade. Ele chama São Paulo de “Meca do grafitti” e diz que deve ser a cidade mais pintada do mundo, mesmo que boa parte do que é feito ainda seja ilegal.
Na exposição, o visitante tem acesso a um grande acervo de imagens dos jovens artistas que começaram com Ozi. Mensagens de protesto misturando ‘pixo’ e desenho, “numa época em que estava proibido criticar o governo”, diz o curador Marco Antonio Teobaldo. Ele explica que o conceito da mostra nasceu justamente na ideia de traçar um percurso da obra de Ozi conectando com as outras produções pioneiras e importantes do grafitti brasileiro. “Foi um trabalho realizado nas ruas e que ganha força nas periferias, assim como ocorreu com todo movimento da Streert Art”.
Teobaldo conta que trazer a exposição para Brasília tem ainda um
aspecto peculiar, porque essa é uma cidade planejada, tombada e, segundo
ele, teoricamente avessa a qualquer tipo de intervenção espontânea. “O
artista urbano em Brasília tem vários desafios a mais”, diz. Para ele,
mesmo diante desse diferencial da cidade, temos aqui grandes artistas
“mas novamente vemos que é nas periferias que encontramos a força destas
mensagens. Levar arte para uma população que tem sido sistematicamente
massacrada pelo sistema não é para qualquer um.”
Reconhecimento
Depois de mais de 30 anos produzindo e vivendo da arte, Ozi diz que
atualmente o Brasil é um dos grandes celeiros da arte urbana no mundo. O
processo de reconhecimento também é mais rápido, mas “o cara tem que
mostrar ao que veio senão é mais um pintando muros e paredes, repetindo
fórmulas.”
Apesar do respeito que os brasileiros conquistaram, de acordo com Ozi
ainda falta muito. Ele relata que várias galerias não sabem lidar e não
respeitam o artista urbano. O trabalho é mal remunerado. No exterior,
ele conta que existe mais respeito e existe um mercado específico de
arte urbana, com galerias, museus e grandes festivais que promovem os
artistas e a modalidade.
“Aqui ainda falta conhecimento e a cultura do que é de fato a arte urbana. O graffiti
é uma contravenção que acho que vai demorar mais um pouco para ser
respeitado e entendido como uma arte importante”, afirma Ozi.
Exposição
A mostra está dividida em quatro segmentos: rua, arte fina, matrizes e
bio. Em rua estão expostas as obras de grandes dimensões, trazendo a
linguagem utilizada pelo artista nas intervenções em espaços públicos.
Arte fina são as obras criadas em suportes variados, telas emolduradas,
madeiras, objetos de uso doméstico, latas de spray e outros objetos que
formam uma coleção de pinturas, esculturas e assemblages.
Em matrizes será exibido um conjunto de máscaras de estêncil dos
trabalhos mais emblemáticos da carreira de Ozi, feitas entre 1985 e
2014. Por fim em bio, vídeos reúnem depoimentos sobre a história da arte
urbana no Brasil.
Oficina para transgêneros
Oficina de estêncil para transgêneros (Foto: Marco Antonio Teobaldo/Divulgação)
Antes da abertura da exposição em Brasília, Ozi e sua equipe decidiram
inovar e organizaram uma oficina de estêncil para o público transgênero.
Foram selecionados 18 participantes indicados pelas organizações Creas
da Diversidade, Instituto Brasileiro de Transmasculinidade, Afrobixas,
Anav Trans DF, Diretoria da Universidade de Brasília e Grupo Mães pela
Diversidade.
“Muito se discute atualmente sobre a questão de gênero em vários segmentos da sociedade, inclusive no graffiti. Gostaria muito de ser um incentivador à inserção de artistas urbanos transgêneros no Brasil”, diz Marco Antonio Teobaldo, curador da exposição. Ele lembra que Alex Vallauri, o primeiro artista brasileiro a fazer intervenções urbanas inseridas no contexto da arte urbana, era homossexual assumido.
A oficina de estêncil abordou questões sobre identidade de gênero e como é possível criar ações afirmativas de combate à transfobia, homofobia e outras formas de preconceito por conta da orientação sexual. A equipe está preparando um mural na fachada da Secretaria de Cultura do Distrito Federal que fica pronto neste domingo (8). O trabalho está sendo construído com os participantes da oficina, Ozi e grafiteiros do DF, entre eles Guga Baygon.
Serviço
Exposição Ozi -30 anos de arte urbana no Brasil
Visitação: de 11 de janeiro a 26 de fevereiro, de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.
Local: Caixa Cultural Brasília, SBS, Quadra 4
Entrada franca
fonte: Por Graziele Frederico, G1 DF
Visitação: de 11 de janeiro a 26 de fevereiro, de terça-feira a domingo, das 9h às 21h.
Local: Caixa Cultural Brasília, SBS, Quadra 4
Entrada franca
fonte: Por Graziele Frederico, G1 DF




















