Na manhã da quarta-feira 11, em seu gabinete no 20º andar do
edifício-sede do Banco Central (BC), o presidente Ilan Goldfajn tinha um
grande motivo para sorrir. O IBGE havia divulgado, às 9 horas, algo
que, até meados de dezembro, os analistas duvidavam que pudesse
acontecer. A inflação oficial em 2016 fechou em 6,29%, abaixo do teto da
meta (6,50%). Além de poupá-lo de escrever uma carta ao ministro da
Fazenda, Henrique Meirelles, com a justificativa para o descumprimento
da meta, o anúncio do IBGE sacramentou a reconquista da credibilidade do
BC protagonizada por Ilan, como é conhecido no mercado financeiro.
É
essa credibilidade que, a partir de agora, os diretores do Comitê de
Política Monetária (Copom) colocam em jogo ao acelerar – corretamente,
frise-se – a queda dos juros básicos, que passaram de 13,75% para 13% ao
ano. A decisão, tomada na noite da mesma quarta-feira, surpreendeu a
maioria dos economistas, que acreditavam num corte de meio ponto
percentual. Mas houve quem antecipou a medida, como a equipe da gestora
de recursos Mauá Capital, que precificou a queda de 0,75 ponto
percentual.
“O Banco Central foi cirúrgico na sua atitude”, afirma
Luiz Fernando Figueiredo, sócio fundador da Mauá e ex-diretor do BC
(leia entrevista no link ao final da reportagem). Para tirar o País da
maior recessão de sua história, no entanto, o governo ainda vai precisar
de outras vitórias que, associadas a uma política monetária mais
agressiva, poderão finalmente resultar num Produto Interno Bruto (PIB)
positivo. Num raro momento de convergência, o setor produtivo e o
mercado financeiro aplaudiram a decisão do Copom.
“O corte de 0,75
ponto percentual é um primeiro passo para a retomada do crescimento
econômico e a geração de empregos que o Brasil precisa”, afirmou Paulo
Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(Fiesp). “Além de reduzir a Selic, é preciso aumentar o crédito da
economia para que as empresas invistam e as famílias consumam.” Na mesma
linha, a Fecomércio RJ ressaltou que “reduzir o custo do crédito é
fator-chave para a retomada do ânimo dos agentes econômicos e a
necessária recuperação do consumo e do investimento”.
No mesmo
dia, o Bradesco, o Banco do Brasil e o Santander anunciaram o repasse
imediato da queda da Selic para as taxas cobradas de seus clientes. A
redução, que tende a ser seguida pelas demais instituições financeiras, é
bem-vinda dado o patamar elevadíssimo praticado no Brasil. A mais
recente pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças,
Administração e Contabilidade (Anefac) mostra que a taxa média paga
pelas pessoas físicas, em dezembro, era de 8,16% ao mês (156,33% ao ano)
e a taxa média oferecida para as pessoas jurídicas era de 4,74% ao mês
(74,32% ao ano).
“Com uma queda maior dos juros na ponta, os
consumidores e as empresas terão a oportunidade de renegociar suas
dívidas antigas, que são mais caras”, diz Antonio Carlos Machado,
conselheiro da Anefac. “As condições serão menos ou mais favoráveis
dependendo da concorrência entre os bancos.” Na avaliação da economista
Tatiana Pinheiro, do Banco Santander, o papel dos financiamentos será
fundamental para lubrificar a roda do crescimento econômico, num
processo que se dará em duas etapas. “O destaque nesse ano será o
crédito voltado para o investimento das empresas, enquanto o consumo das
famílias será o carro-chefe em 2018”, diz Tatiana, que projeta uma
expansão de 0,7% do PIB em 2017.
“Hoje, a realidade é que não há o
canal do crédito, seja para os indivíduos, seja para as empresas,
devido ao custo extremamente alto do dinheiro.” Desde 2007, o BC
monitora a evolução do crédito no Brasil. Até 2015, o volume de
empréstimos bancários cresceu todos os anos, sem exceção. Em 2016, no
entanto, o estoque de financiamentos recuou aproximadamente 2%, para uma
carteira pouco superior a R$ 3,1 trilhões – o dado oficial será
divulgado no fim de janeiro. Como esse montante de empréstimos
para empresas e consumidores representa quase 50% do PIB, é unânime
entre os economistas a análise de que a recuperação da economia depende
diretamente, mas não exclusivamente, do aumento do crédito.
Sendo
assim, o afrouxamento monetário do Copom contribui para esse processo ao
baratear o custo dos empréstimos. Contribui, mas não resolve todo o
problema. Para que uma operação de financiamento se concretize num
ambiente recessivo é preciso que o cliente tenha confiança no futuro da
economia, se dispondo a contrair uma nova dívida mesmo com o risco de
perder o emprego. Na outra ponta, a instituição financeira precisa
aprovar a operação mesmo ciente de que o tomador pode virar inadimplente
se o desemprego atingi-lo. É justamente essa dificuldade em unir as
duas pontas que explica, por exemplo, o tombo de 20,2% nas vendas de
veículos em 2016 – o quarto ano consecutivo de retração.
Basta
analisar as estatísticas da indústria automotiva para constatar que o
papel do crédito foi fundamental nos tempos áureos, no início desta
década, quando o setor chegou a vender 3,8 milhões de unidades por ano,
ante o atual patamar de 2 milhões. “Hoje em dia, de cada dez clientes
que tentam financiar um carro novo na concessionária, sete recebem um
não como resposta dos bancos”, diz Alarico Assumpção Jr., presidente da
Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
“Nos bons tempos, a proporção era a oposta, com sete aprovações em cada
dez pedidos.”
O rigor excessivo das instituições financeiras tem
incomodado os executivos das montadoras. Segundo a Associação Nacional
dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), apenas 53% dos carros
novos estão sendo financiados, percentual considerado baixo em se
tratando de um bem durável de alto valor. “Os bancos estão seletivos,
mas esse quadro deve melhorar com a queda dos juros pelo Banco Central”,
diz Antonio Megale, presidente da Anfavea. Para o setor de
eletroeletrônicos, que também é extremamente dependente das compras
parceladas, a queda da Selic representa um alívio.
Uma sondagem
feita pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica
(Abinee) mostra que 60% dos empresários acreditam em uma recuperação dos
negócios ainda no primeiro semestre. Com dois anos seguidos de queda
nas vendas e nos lançamentos, o mercado imobiliário também esfrega as
mãos diante das perspectivas de barateamento do crédito de longo prazo.
“A queda dos juros pelo Banco Central incentiva a produção e reduz a
saída de recursos da caderneta de poupança, que é o nosso principal
funding”, diz Flavio Amary, presidente do Sindicato da Habitação
(Secovi-SP). Em 2016, a poupança registrou perda líquida de R$ 40,7
bilhões, o segundo pior resultado desde a criação do Plano Real.
Isso
ocorreu porque muitos poupadores transferiram seus recursos para outras
aplicações financeiros que oferecem retornos atrelados à Selic. Como as
regras do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) determinam que 65% dos
recursos depositados nas cadernetas devem ser destinados ao
financiamento de moradias, o esvaziamento das poupanças é uma ameaça
para o crédito imobiliário. “O interessante é que a queda da Selic
também vai baratear o crédito imobiliário que não está atrelado à
poupança nem ao FGTS”, diz Amary, que acredita numa recuperação das
vendas de imóveis novos em 2017.
DESAFIOS Apesar
de o crédito ser um motor importante da economia, os especialistas
ressaltam que a recuperação do PIB depende de outras conquistas do
governo. No âmbito fiscal, a aprovação da reforma da Previdência Social é
fundamental para não inviabilizar a nova regra de expansão dos gastos
públicos, que já está em vigor. Pela lei, as despesas só poderão crescer
no mesmo ritmo da inflação do ano anterior. Além disso, a renegociação
das dívidas dos Estados, com a adoção de contrapartidas fiscais, é vista
como imprescindível para a estabilidade fiscal (leia destaque "Socorro
antecipado" ao final da reportagem).
A boa notícia para os cofres
públicos é que, por causa da queda da Selic, o país gastará menos com o
pagamento do serviço da dívida. O Tesouro Nacional administra uma dívida
interna de R$ 2,96 trilhões, dos quais 26% (R$ 770 bilhões) são de
títulos pós-fixados, ou seja, seguem a oscilação da taxa Selic. Cada
ponto percentual a menos de Selic significa que a União economizará R$
7,7 bilhões por ano com o pagamento de juros. Se o aperto monetário
total do Banco Central derrubar a taxa básica para um dígito, como parte
do mercado está apostando, o Erário poupará mais de R$ 30 bilhões em
apenas 12 meses.
A recuperação do PIB também passa pelo
destravamento dos investimentos. Para isso, os empresários aguardam a
retomada das concessões de infraestrutura. Em março, serão leiloados
quatro aeroportos: Porto Alegre, Florianópolis, Salvador e Fortaleza. O
governo estuda privatizar Congonhas e Santos Dumont, além de
desengavetar o plano de aviação regional. Há ainda a expectativa de
leilões de rodovias, portos, ferrovias, além de oportunidades nas áreas
de energia, petróleo e gás. Aos poucos o País vai resgatando sua
credibilidade no exterior, atraindo recursos.
Foram US$ 78,8
bilhões em investimento estrangeiro direto nos 12 meses encerrados em
novembro e mais US$ 70 bilhões previstos para 2017. Na segunda-feira 9, a
Petrobras surpreendeu os analistas ao captar US$ 4 bilhões no exterior
para uma demanda próxima de US$ 20 bilhões (leia destaque "País mais
atrativo para investidor internacional" ao final da reportagem). Na
quarta-feira 11, o presidente da estatal, Pedro Parente, anunciou uma
expansão de 35,7% dos investimentos neste ano, totalizando US$ 19
bilhões. No auge do período pré-Lava Jato, a Petrobras chegou a
representar 10% de todos os investimentos feitos no País.
Animado
com as recentes notícias positivas, o presidente Michel Temer comentou,
na quinta-feira 12, em evento na Praia Grande (SP), que “em pouco tempo”
o Brasil terá juro “de um dígito”. “Vocês viram que os bancos já
começaram a reduzir também as suas taxas de juros”, disse o presidente.
“Nós estamos nesse trabalho e esse trabalho tem dado resultado, somado,
naturalmente, à questão da queda da inflação.” A favor de Temer, há pela
frente alguns dados positivos como a queda contínua da inflação, o
dólar bem comportado e a colheita de uma safra agrícola recorde.
Na
lista dos riscos, estão a disputa na base aliada pela presidência da
Câmara dos Deputados, os impactos políticos da Operação Lava Jato e os
potenciais estragos causados pela administração Donald Trump. Há ainda o
fantasma do desemprego, que gera cautela nos consumidores. A
Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê que a taxa de
desocupados no Brasil vai subir para 12,4% neste ano, quase um ponto
percentual a mais do que em 2016.
Trata-se de um incremento de 1,2
milhão de pessoas na fila do desemprego, o que representa quase um
terço de todos os trabalhadores que ficarão sem trabalho no mundo, neste
ano. O cenário recessivo foi levado em consideração pelo Copom. No
comunicado divulgado após a reunião, os diretores afirmam que “a
retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual
que a antecipada previamente”. O BC começou a fazer a sua parte ao
iniciar a demolição da rocha de juros que travam o crescimento. A
esperança é que Brasília viabilize os próximos passos para reativar o
PIB.
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País mais atrativo para investidor internacional
Por Cláudio Gradilone
Desde
1991, quando o Brasil normalizou suas relações com a comunidade
financeira internacional, o mercado tem uma praxe: aguardar a captação
externa da Petrobras, normalmente em janeiro, para sentir o apetite dos
investidores. Os problemas da estatal impediram que isso ocorresse entre
2014 e 2016, mas, neste ano, o mercado voltou à normalidade. E os
indícios são favoráveis.
Na segunda-feira 9, a Petrobras captou
US$ 4 bilhões em títulos globais. Os papéis de cinco anos pagaram 6,125%
ao ano, abaixo dos 6,5% previstos inicialmente, e os de dez anos
pagaram 7,375%, abaixo dos 7,5% previstos. A demanda chegou a US$ 20
bilhões, cinco vezes mais do que a captação. Dois dias depois, na
quarta-feira 11, a empresa de celulose Fibria levantou US$ 700 milhões
por dez anos, pagando 5,3% ao ano, ante os 6,125% previstos no início do
processo, que pretendia levantar
US$ 500 milhões.
Finalmente,
na quinta-feira 12 a Raízen fechou a captação de US$ 500 milhões por
dez anos, com taxas ainda sendo negociadas. Segundo a empresa de
informações financerias Dealogic, nos dez primeiros dias de janeiro os
países emergentes captaram US$ 9,6 bilhões no mercado global, sendo mais
da metade captações brasileiras. A melhora do cenário para o Brasil,
aliado à pressa do mercado que quer fechar negócios antes da posse de
Donald Trump, em 20 de janeiro, estimulou os banqueiros de investimento a
voltarem mais cedo do recesso de Ano Novo.
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Socorro antecipado
Por Gabriel Baldocchi
A
crise fiscal do Estado do Rio de Janeiro cobrará um alto custo dos
servidores. Além da proposta de aumentar a contribuição previdenciária,
rejeitada pela Assembleia Legislativa no pacote de ajuste enviado pelo
Executivo, os funcionários públicos estaduais podem sofrer cortes nos
salários, com redução proporcional da jornada de trabalho. O pacote de
socorro costurado pelo governador Luiz Fernado Pezão com o ministro da
Fazenda, Henrique Meirelles, deve envolver garantias para empréstimos de
ao menos R$ 6 bilhões e incluir a venda da Companhia Estadual de Águas e
Esgotos (Cedae), outro ponto visto com resistência pelo Legislativo
estadual.
Somadas as iniciativas de corte de custo, suspensão no
pagamento de juros e antecipações de receitas, o pacote de ajuste pode
chegar a R$ 50 bilhões por um período de até quatro anos. Os detalhes
serão apresentados nos próximos dias para a presidente do Supremo
Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia. A equipe do presidente Michel
Temer havia elaborado um programa de ajuste a Estados com maior
gravidade – além do Rio de Janeiro, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul
já decretaram calamidade financeira –, mas o projeto foi vetado no final
do ano passado depois que o Congresso retirou contrapartidas exigidas
pelo Ministério da Fazenda.
A intenção é evitar que a crise dos
governos regionais não evolua para um colapso social ou um socorro
frouxo, sem ajustes que possam evitar novas dificuldades no futuro.
Entre as contrapartidas exigidas no projeto original, que autorizou a
renegociação da dívida de outros Estados com a União, estava a proibição
para contratar novos servidores e para conceder reajustes aos
funcionários públicos.
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