Aumentou para 80 o número de macacos mortos nos últimos dias, nas regiões Sul e Noroeste do Espírito Santo.
A morte desses animais aponta para a suspeita de febre amarela, mas o
Estado ainda não é considerada área de risco, e a vacina deve ser
aplicada apenas em quem vai viajar para locais com surto da doença.
“A ocorrência de mortes desses animais já é um alerta. Então existe
essa preocupação”, diz Gilton Almada, coordenador do Centro de
Emergências em Saúde Pública da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).
“É importante monitorar para conseguir preceder. Precisamos trabalhar
na investigação. Se confirmado, vai ser vacinado o município onde foi
encontrado o macaco morto com febre amarela”, diz Gilton. O resultado da
investigação sai em cerca de 20 dias.
São 11 casos em Colatina;
17, em Pancas; 34, em Ibatiba; quatro, em Baixo Guandu; quatro, em
Governador Lindenberg; e 10, em Irupi. Até a manhã de sexta-feira (13),
eram 54 casos. Mas, ao longo do dia, a Prefeitura de Ibatiba confirmou o
aumento de 10 para 34 casos na cidade.
Em
Colatina, quem também procurou o posto de vacina logo cedo foi Carlos
Roberto Rachid, 64 anos, aposentado (Foto: Brunela Alves/ A Gazeta)
Transmissão
Há duas formas de transmissão e de febre amarela. Uma é a silvestre; a
outra, urbana.“Na silvestre, a infecção é entre macacos e mosquitos
silvestres, que só vivem na floresta. Se uma pessoa entra na floresta, é
picada por esse mosquito e vai infectada com o vírus para a cidade, o
Aedes aegypti pica essa pessoa e retransmite a doença para outras. Isso
caracteriza a febre amarela urbana”, explica o infectologista Aloísio
Falqueto.
Ou seja, o mesmo mosquito que transmite a dengue, a zika e a
chikungunya é o responsável por disseminar, em área urbana, a febre
amarela. “A preocupação maior é não deixar chegar a doença aqui”, diz
Aloísio Falqueto.
Em sua forma mais branda, a febre amarela se parece com uma virose
simples. Pode apresentar febre, mal-estar, enjoos, vômitos e dores
musculares. Na mais grave, icterícia (coloração amarelada de pele e
olhos), urina escura, falência renal, falência do fígado e de outros
órgãos e até morte.
Vacina
Embora haja a suspeita de que os animais mortos estejam com febre
amarela, “não há o que se preocupar”, como disse Gilton, com febre
amarela entre humanos no Estado. “Não há transmissão de febre amarela em
cidades desde 1942”, diz o coordenador.
Por isso, o Espírito Santo não é um Estado com recomendação para
vacinar a população. Ela só indicada para quem vai viajar para regiões
com alerta para febre amarela, que não é o caso de nenhuma das cidades
do Estado.
O alerta vale, por exemplo, para quem vai para Minas Gerais, que teve
38 mortes por febre amarela e decretou situação de emergência em 152
cidades.
10 primatas mortos em Colatina
Pelo menos dez macacos da espécie barbado (bugio) foram encontrados
mortos na divisa de duas propriedades em Itapina, distrito de Colatina,
sendo seis animais na área do bancário Dimas Deptuski, 50 anos, e quatro
primatas na área do aposentado Luis Carlos Lerback, de 62 anos.
Além dos encontrados na última quinta-feira, Dimas Deptuski contou que
no dia 2 de janeiro enterrou outros dois macacos na sua propriedade. “Eu
não tinha noção de que eles poderiam estar com suspeita de febre
amarela. Achei que fosse coisa da natureza mesmo”, conta.
O bancário ainda disse que só foi possível saber da morte de mais
macacos porque, além de andarem em bandos, eles costumavam ficar perto
da sua casa. “Se eles não ficassem mais próximos da gente, não iríamos
dar conta de que eles tinham morrido aqui.”
Luis Carlos afirmou que esta é a primeira vez que acontecem tantas
mortes de macacos na região, mas que diante da suspeita de febre
amarela, foi ao posto para se vacinar. “A gente fica um pouco assustado.
É melhor prevenir do que remediar. Se não for confirmado, pelo menos
estou imunizado com a vacina.”
Já Dimas Deptuski disse que por enquanto não vai tomar a vacina. “Vou esperar o resultado da análise primeiro.”
De acordo com os proprietários, dois macacos mortos encontrados na
propriedade foram levados para análise. A Secretaria de Estado da Saúde
informou que os resultados devem sair em 20 dias.
Corrida por vacina em Colatina
Em Colatina, Região Noroeste, aumentou a procura pela vacina de febre
amarela por quem vai viajar para as áreas de risco. A dona de casa
Joaquina dos Santos, 57 anos, pretende visitar parentes em Teófilo
Otoni, Minas Gerais, considerada uma área de risco de febre amarela.
Diante da suspeita de casos no Estado, ela foi ao posto de saúde na
sexta-feira.
O aposentado Carlos Roberto Rachid, 64, também foi o posto. “Vou levar
meu filho em Muriaé, Minas Gerais, e decidi tomar. Tem muita gente na
fila para isso também. Agora, estou me sentindo protegido”, finaliza.
De acordo com o Protocolo do Ministério da Saúde, quem mora no Espírito
Santo não precisa ser vacinado, a menos que vá se deslocar para áreas
de risco. O Espírito Santo não é considerado área de risco. Quem planeja
sair do Estado e viajar para áreas de risco de febre amarela, como
Minas Gerais, São Paulo e Estados do Norte do país, deve se certificar
de que está devidamente protegido contra a doença.
Por isso, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) orienta o viajante a
buscar uma Unidade Municipal de Saúde caso ainda não tenha tomado a
primeira dose da vacina ou a dose de reforço. Se for a primeira vez que a
pessoa é vacinada, a dose deve ser aplicada pelo menos dez dias antes
da viagem para que o organismo produza anticorpos contra a doença.
Minas: situação de emergência com 38 mortes
A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais informou que as
notificações de mortes de pessoas com suspeita de febre amarela subiram
para 38 no Estado. O número de casos suspeitos chegou a 133. O governo
decretou situação de emergência em 152 cidades.
Segundo a Secretaria de Saúde, das 38 mortes, dez são óbitos prováveis
da doença, porque os pacientes tiveram exame laboratorial preliminar
positivo. A confirmação ainda depende de mais investigação.
Já as notificações de casos suspeitos subiram, em relação ao último
balanço, de 110 para 133. Na sexta, o governo decretou situação de
emergência em saúde pública por 180 dias nas áreas do Estado onde há
surto de febre amarela.
O decreto autoriza a adoção de medidas administrativas necessárias ao combate da doença.
Suspeita
O aumento de casos suspeitos de febre amarela em Minas pode estar
relacionado à tragédia de Mariana, em 2015, segundo a bióloga da Fiocruz
Márcia Chame. A hipótese tem como ponto de partida a localização das
cidades mineiras que identificaram até o momento casos de pacientes com
sintomas da doença. Grande parte está na região próxima do Rio Doce,
afetado pelo rompimento da Barragem de Fundão.
“Mudanças bruscas no ambiente provocam impacto na saúde dos animais,
incluindo macacos. Com o estresse de desastres, com a falta de
alimentos, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo a febre
amarela”, afirmou a bióloga.
A Fundação Renova, criada pela Samarco para coordenar ações de
reparação na área atingida pelo desastre de Mariana, não se manifestou
sobre as declarações da bióloga da Fiocruz. Por meio de nota, informou
estar em curso um diagnóstico sobre a biodiversidade na região.
Turistas
O coordenador do Centro de Emergências em Saúde Pública da Secretaria
de Estado da Saúde (Sesa), Gilton Almada, não crê que possam vir pessoas
infectadas de Minas Gerais para o Espírito Santo, até pela falta de
condições físicas do infectado.
Mas ele alerta para que capixabas que forem viajar para locais com
casos confirmados de febre amarela, inclusive Minas Gerais, tomem a
vacina. “O ideal é tomar a vacina dez dias antes”, aconselha o
coordenador.
Almada diz ainda que o turista mineiro também pode tomar a vacina já
que terá que retornar para áreas com perigo de infecção. As vacinas
estão disponíveis em postos de saúde municipais.
Repelente esgotado na farmácia e população local com medo
O número de macacos mortos em Ibatiba, Região do Caparaó, chegou a 34.
Segundo a Secretaria de Saúde da cidade, somente após resultado do
material colhido nos animais a imunização deve ser distribuída à
população. Os moradores estão com medo, e o estoque de repelentes de
algumas farmácias acabou por causa da grande procura.
Segundo o médico veterinário da Secretaria de Saúde de Ibatiba, Adenir
Gomes de Oliveira, 90% dos animais estavam em estado de decomposição,
mas foi possível recolher amostra de tecido dos órgãos, principalmente
do fígado, dos demais macacos. O material foi encaminhado ao Instituto
Evandro Chagas, no Pará. O resultado sai em 20 dias.
O produtor rural Luciano Lucindo Lima encontrou um dos macacos mortos
em seu sítio na localidade de Córrego das Perobas e acionou a
prefeitura. Apesar de não haver casos confirmados da doença no Estado,
as populações dos municípios vizinhos estão em alerta.
Em Irupi, a prefeitura confirmou o aparecimento de 10 macacos mortos.
As vacinas, para pessoas que irão para locais de surto, acabaram e
chegará nova remessa na próxima segunda.
Febre amarela
Tira-dúvidas
Há recomendação para vacinação no Estado?
O Espírito Santo não é um Estado com recomendação para vacina. A não
ser que a pessoa viaje para regiões com o registro da doença.
O que significa para a saúde pública a quantidade de macacos mortos?
Todos os anos há surtos de doenças em animais, fenômeno chamado
epizootia, o equivalente nos animais à epidemia para humanos. Quando um
surto desses acontece entre macacos, é um alerta de que podem ser
vítimas de febre amarela. Investigar esses casos ajuda a antecipar ações
contra a doença em meio urbano.
Quais são os sintomas dela?
Em casos mais brandos, a sensação é de uma virose comum, com febre,
mal-estar, enjoos, vômitos, dor muscular. Em casos graves, icterícia,
urina escura, falência renal, falência do fígado, levando à hemorragia,
falência de outros órgãos e morte.
Duram quanto tempo?
A evolução da doença dura de sete a dez dias. Mesmo curada, a pessoa pode apresentar por meses alguns dos sintomas.
Quem teve pode ter de novo?
Não, a pessoa fica imunizada.
É considerada grave?
Sim, com taxa de mortalidade de 15% a 30% entre os infectados.
Como funciona a transmissão?
Mosquitos silvestres picam macacos infectados e espalham a doença entre
os animais, gerando uma epizootia, o equivalente à epidemia. A doença
pode chegar à área urbana caso a pessoa entre na floresta e lá seja
infectada. Ao retornar para a cidade e ser picada pelo Aedes aegypti,
esse mosquito que só vive em área urbana, torna-se transmissor da febre
amarela.
Quem pode ser vacinado?
A vacina só é indicada em cidades em estado de alerta. No Espírito
Santo, nenhuma está nessa situação. Só não é indicada para grávidas e
para pessoas com imunodeficiência. Não há efeitos colaterais.
Qual é a validade da vacina?
A política atual do Ministério da Saúde contra Febre Amarela recomenda
uma dose de reforço, depois de dez anos da primeira vacina, para
crianças e adultos.
fonte: globo.com
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